Testemunhos

Relatos de quem decidiu partir à aventura!
Muitas vezes atrás de um sonho.

Estes relatos não correspondem a processos anteriores de "Novos Povoadores" porque o projecto está agora a começar.
São os "nossos" migrantes, cujas estórias ajudam à melhoria do modelo migratório.

Apelámos a um relato sobre o que correu bem e o que "nem por isso"!

A nova Migração: um incentivo para quem quer deixar os grandes centros urbanos

Mariana Teixeira nasceu no Brasil há 28 anos, mas mudou-se com a família para Portugal ainda criança. Foi no distrito de Lisboa, mais concretamente em Oeiras, que recebeu toda a sua educação e formação pessoal. Viveu sempre num ambiente urbano até terminar os estudos universitários.

Já com o curso de terapeuta da fala completo, passou por várias instituições de renome em grandes centros urbanos (Lisboa, Porto). Mas fortes motivações pessoais mudaram o rumo da sua vida. Há dois anos mudou-se, de armas e bagagens para a Lousã, uma vila do Pinhal Interior Norte, que dista cerca de 30 quilómetros de Coimbra.

Uma mudança é sempre difícil, ainda mais quando implica transitar de um meio onde tudo acontece ao segundo e as pessoas são bombardeadas com grande número de ofertas culturais e de lazer. Por isso, Mariana não deixou de sentir receios, nomeadamente a possibilidade de "estagnar" a nível profissional, pela falta de recursos e informação acessíveis.

Felizmente, esta mudança veio provar-lhe que o meio rural é um manancial de oportunidades. Foi neste meio que, pela primeira vez, ousou participar num concurso para Empreendedores Portugueses. O resultado surgiu, pouco tempo depois, com a publicação de um artigo de opinião no Jornal I intitulado “E se Portugal não acabasse na calçada de Carriche?”.

Mariana Teixeira concluiu que era muito mais fácil concretizar projectos de interesse em cidades mais pequenas ou vilas, dado o aproveitamento qualitativo das horas que sobram no dia-a-dia. Com o tempo que poupou em deslocações trabalho-casa e casa-trabalho, envolveu-se em projectos inéditos da comunidade. Aproveitando uma maior facilidade na proximidade com parceiros locais, integrou a equipa que criou a "Agenda para Todos", uma agenda igual às outras nas suas funcionalidades, mas acessível a crianças, idosos, pessoas com necessidades educativas especiais, etc. Desenvolveu também o projecto “Comunicação Acessível”, no âmbito do ano Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social, que arrecadou uma Menção Honrosa no Prémio Manuel António da Mota em 2010.

Na sua perspectiva, nas cidades o stress e a ansiedade a que as pessoas estão sujeitas não lhes permite ter tempo para pensar em nada muito além da principal ocupação, uma vez que esta já toma todo o tempo disponível.

Mas nem tudo é cor-de-rosa. No inicio a adaptação foi bastante difícil, pois estava habituada ao grande rebuliço das cidades, aos amigos, família, etc., mas com o tempo viu que tinha melhores condições a todos os níveis. Neste momento, já possui uma rede de suporte, um trabalho que lhe permite ter flexibilidade para investir na sua formação, no país e no estrangeiro, e uma qualidade de vida que nunca teria em grandes centros urbanos. Desta forma, considera que “a corrente migratória” para o interior do país, além de impulsionar a
economia, permite ter uma vida mais saudável e próspera.

Relato de Mariana Teixeira revisto por Maria João Borges

António Sá e Ana Pedrosa

Monte do Sapeiro

Pedro, funcionário público, no topo da carreira, tinha uma paixão louca pelo mar. Durante 10 anos, todos os dias quando ia trabalhar fazia sempre a mesma pergunta, “será que eu vou trabalhar nisto o resto da minha vida?”. Não, definitivamente a resposta era não.

Natércia, responsável de campanhas de publicidade e marketing numa grande empresa de Lisboa, aos poucos e poucos foi percebendo que o mundo empresarial era feito de enredos e meandros, jogos e guerras, que não lhe enchiam as medidas.

Muito timidadamente, o assunto da mudança de vida era abordado entre ambos, mas sem grandes conclusões ou desenvolvimentos, até que um dia, do nada, sem que tal sequer fosse ponderado ou questionado, o Pedro percebe que não há momentos certos, nem alturas certas, e decide que aquele dia “é o dia”. Entra em licença sem vencimento e muda-se de armas e bagagens para a aldeia na Costa Vicentina que o viu nascer, e que por sinal, foi a última criança que lá nasceu.

Uns meses depois, com a proposta de mudança de função dentro da empresa em que se encontrava, Natércia vê aí a sua possibilidade de mudança de vida e resolve propor e negociar a sua saída. Em menos de um mês, estava livre e desimpedida para fazer as malas e rumar em direcção à Costa Vicentina, onde até então, apenas passava as suas férias e fins-de-semana, e onde o Pedro já morava há uns meses.

Foi uma mudança radical, que não foi bem vista nem apoiada por amigos e familiares, que entendiam que tudo aquilo não passava de um capricho ou devaneio, uma loucura que iria originar o salto para o precepício.

Foi uma luta difícil, com muitas burocracias, dificuldades e obstáculos pelo meio, mas 4 anos depois estamos perfeitamente adaptados, integrados e não trocamos isto por nada.

Hoje o Pedro faz vida de mariscador, apanha essencialmente “perceves”, e juntos, requalificaram e reconstruiram o Monte do Sapeiro.

Um monte pertencente à mesma família há mais de 100 anos, onde foram criados avós, pais, filhos e netos, adquirindo assim, como “filhos da terra”, um carinho especial por ela. Não gostando de o ver abandonado juntaram forças e puseram mãos à obra, recuperando a casa outrora degradada, transformando-a numa casa acolhedora, de uma simplicidade extrema, mas muito confortável.

Ao fim de alguns anos a usufruirem em pleno deste espaço, e com o gosto adquirido de bem receber os amigos e com eles partilhar a tranquilidade que ainda se sente neste cantinho do paraíso, resolveram lançar-se nessa aventura de abrirem as portas da sua casa e receber quem os queira visitar como se de amigos se tratassem.

O Monte do Sapeiro é assim o projecto recente, de um jovem casal neo-rural,
que optou por abandonar a sua vida na cidade e o seu emprego “confortável”, e ousou um dia partir em busca de um refúgio e da tranquilidade.

Mas em vez de perderem o Norte, redescobriram o Sudoeste.

Esta é história no nosso Monte, um monte que queremos partilhar!

www.montedosapeiro.com

Viver em Castelo Rodrigo

Chamo-me Ana e vivo com a minha família em Castelo Rodrigo, gerindo a Casa da Cisterna, um Turismo em Espaço Rural, localizado dentro das muralhas do castelo.
Migrei há 15 anos, ao contrário dos jovens da região onde vivo, da cidade para o campo, quando estava a terminar o curso de Biologia na Universidade de Lisboa (antes morava em Lisboa, cidade onde nasci, vivi e estudei).
Parte da minha família, originária da Beira Alta, perto de Trancoso, também migrou das zonas rurais para as zonas urbanas, neste momento não tenho lá familiares directos. Mas este processo aconteceu nos anos 40-50.
Tendo tido oportunidade de fazer o estágio de fim de curso em temas relacionados com as Aves de rapinas na zona do Douro Internacional, mudei-me para lá e envolvi-me em projectos de conservação da natureza, muitíssimo interessantes, que nunca conseguiria em áreas urbanas. Exemplos disso são o Parque Natural do Douro Internacional, área protegida onde estagiei e trabalhei durante alguns anos, e a Associação Transumância e Natureza (ONGA gestora da Reserva privada da Faia Brava), à qual estou ligada desde a sua génese.
A par disto, foi surgindo um projecto familiar que passou pela aquisição de uma casa em ruínas, na Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo, que foi reabilitada e adaptada para uma unidade de Turismo em Espaço Rural, com 4 quartos. Em 3 anos, de uma casa, passamos a duas, e neste momento a Casa da Cisterna tem um total de 7 quartos, que gostaríamos de ver ainda crescer um pouco mais. Mas só o futuro dirá se isto será possível.